Nas patas do Cão Leitor: “Si vede non si vede”

Para um domingo soalheiro, o Cão Leitor sugere: “Si vede non si vede“.

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Ficha Técnica:

Autora: Silvia Borando

Ilustradora: Silvia Borando

Editora: minibombo

Ano: 2016

Breve descrição: Ler, mas sem ler. Será isso possível? Certamente que sim, especialmente perante um livro-jogo tão claro e legível como esta obra italiana oriunda de Reggio Emilia, cidade verdadeiramente amiga das crianças e dos jovens leitores. Traduzido e editado em vários países, a inexistência de uma obra em português não deve assustar os potenciais utilizadores. É que o livro desta vez escolhido é um livro silencioso … sem palavras … em que o principal objetivo é “ler com olhos de ver” e perceber quem se vê e quem não se vê!

Trailer do livro: aqui.

Excerto:

Si Vede

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Sugestões:

Si vede non si vede” é um verdadeiro livro-jogo; um daqueles livros em que ler e brincar se misturam de tal forma que desafiam qualquer leitor, desde os mais miúdos – e este é um livro recomendado desde os 3 anos de idade – até aos mais graúdos!

As primeiras páginas apresentam-nos 14 animais coloridos sob um fundo branco… o contraste perfeito para conseguirmos identificar cada uma destas criaturas. O problema, ou melhor, o desafio e as questões, surgem quando se altera o contexto e, nos diferentes fundos  das páginas que se seguem, há sempre alguém que se confunde ou camufla no ambiente envolvente. Conseguem descobrir quem é?

Durante a Leitura:

A sugestão mais óbvia para exploração deste livro é a de praticar competências de atenção, discriminação e memória visual, muito importantes para aprender a ler e a escrever. No entanto, o livro também serve o propósito de explorar e refletir sobre linguagem na sua forma (picto)gráfica, a linguagem na vertente escrita que também serve para «comunicar, intencional e naturalmente, por parte da criança», tal como nos diz Horta (2016, p. 27). Uma forma linguística que, sendo diferente da oral, representa a oralidade e também comunica mensagens e conta histórias (Weitsman & Greenberg, 2010).

Antes de aprender a ler e a escrever, há um conjunto de conceitos gráficos ou de escrita que a criança deve compreender. Especialmente nas idades mais jovens, Weitsman & Greenberg (2010) explicam que importa perceber que os livros:

  • têm capa, contracapa e lombada;
  • se seguram numa posição específica, vertical ou horizontal, para a leitura;
  • são lidos do princípio para o fim, da frente para trás;
  • têm um título, autor e ilustrador.

Em relação à leitura, conceitos gráficos primários ajudam a criança a perceber que se lê:

  • da esquerda para a direita;
  • de cima para baixo;
  • do final de uma linha, para o princípio da outra;
  • distinguindo ilustração de texto.

Outros conceitos gráficos ou de escrita há para explorar, nomeadamente que a escrita inclui (i) letras, (ii) palavras, (iii) espaços e (iv) sinais de pontuação, mas estes podem ser melhor explorados com outros livros e noutras idades.

Com “Si vede non si vede“, lendo o livro, apontando e destacando os anteriores (conceitos gráficos), estaremos a preparar pequenos leitores, para aquelas noções básicas e fundamentais de livro e leitura e para isso basta … ler e apontar, apontar e ler e não recear o uso da linguagem para explicitar conceitos que, incidentalmente, vão sendo apreendidos.

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Exemplo: “Aqui, um pouco mais em baixo, vamos começar da esquerda para a direita, para ver se algum animal não está visível!

Após a Leitura:

Este é um livro cuja “leitura” só termina mesmo nas amarras finais … Quando fica tudo escuro e nenhum animais é visível! É aqui que começa a diversão final …

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Quantos animais estão nestas páginas? Quem são esses animais?

Quais as suas cores? E tamanhos? E formas?

Vamos desenhá-los?!

 

Depois do desenho, e reforçando noções fundamentais de escrita, o ideal é que o leitor/escritor mais competente escreva de forma nítida e respeitando as regras da ortografia o nome de cada animal, dirigindo a atenção para a forma e tamanho das diferentes letras, a existência de letras maiúsculas e minúsculas, diferentes tipos de linha (verticais/horizontais, retas/curvas, longas/curtas) e nomes distintos, para letras distintas.

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Se optar por legendar os desenhos com a sua escrita, não se esqueça: utilize o abecedário script. De acordo com a literatura, este tipo de fonte é mais legível e nítido, pode ser comparado à letra de imprensa, apresenta uma separação entre as letras mais percetível, é mais fácil de desenhar por crianças com habilidades motoras finas em desenvolvimento, não requer uniões entre letras e parece exigir menor esforço físico quando a criança tenta reproduzir; este último ponto, ainda a comprovar cientificamente. Entre outras, estas são algumas vantagens que levam Horta (2016) a recomendar a utilização da escrita em script.

  • Outras propostas de atividades, pela editora minibombo, aqui.

AVISO: a exploração do livro “Si vede non si vede” é altamente envolvente! É muito provável que se percam no tempo e que quando derem por ela … já não estejam a ver muita coisa …

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Referências Bibliográficas:

Horta, H. (2016). Linguagem escrita na educação de infância: a intenção à prática. Viseu: Psicosoma.

Weitzman, E. & Greenberg, J. (2010). Abc and beyond. Building emergent literacy in early childhood settings. Toronto: The Hanen Centre.

Nas Patas do Cão Leitor: “Um Bicho Estranho”

Para começar, o Cão Leitor recomenda: ” Um Bicho Estranho”.

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Ficha Técnica:

Autor: Mon Daporta

Ilustrador: Óscar Villán

Editora: Kalandraka

Ano: 2013

Breve descrição: Um bonito livro infantil com um texto breve e “circular”, no qual o final de uma história serve de início para a seguinte. A ilustração, simples, clássica e algo misteriosa, deixa espaço para imaginar … É que, parte por parte, bocadinho a bocadinho, o jovem leitor começa a perceber que o que parece um bicho estranho, não é senão um amigável rato! E a este rato … algo estranho acontece, motivando a segunda leitura de uma história … que já não é igual à primeira!

Excerto:
Olha que ao olhar, olhando,
encontrei um bicho estranho.
Quase parecia um ovo:
gordo em cima, em baixo magro.
Tinha no alto os dois pés,
entre eles, um longo rabo…

Ficha Técnica Editora Kalandraka: Um-bicho-estranho-PT_01

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Sugestões:

“Um Bicho Estranho” é uma obra que nos prende com duas histórias muito simples;  quase não se classificam como narrativas, dada a indefinição de alguns elementos tipicamente presentes numa narrativa “tradicional”.

Não será, por isso, o livro ideal para explorar aquele conceito – o de narrativa – e para trabalhar competências como a inferência linguística ou a compreensão de narrativas. Todavia, dada a simplicidade da história, cria-se o contexto ideal para explorar vocabulário e expandir sem medo – o receio de complicar o entendimento da história – o conhecimento semântico dos jovens leitores.

No estudo de revisão sistemática que publicaram em 2016, Wasik, Hindman e Snell analisaram um total de 36 artigos científicos que preencheram os critérios para inclusão no seu projeto de revisão bibliográfica. Constataram que 6 estratégias são utilizadas consistentemente para expandir o vocabulário das crianças ouvintes durante dinâmicas de leitura partilhada, nomeadamente: (1) ler e reler o mesmo livro; (2) definir explicitamente vocábulos novos; (3) criar diálogo e debates em torno de vocabulário relacionado com o livro; (4) recontar a história; (5) utilizar adereços e acessórios a acompanhar a leitura; e (6) envolver a criança em atividades pós-leitura. Note-se que, apesar da especificidade das estratégias recomendadas, as autoras reforçam a necessidade de investigação aprofundada sobre as mesmas, dada a variabilidade nos critérios e contextos em que foram aplicadas e avaliadas.

As recomendações do Cão Leitor, mais empíricas, embora baseadas na teoria, são as seguintes:

Antes da Leitura:

Introduzir o vocábulo “ESTRANHO”, oralmente e visualmente e refletir sobre o(s) conceito(s) correspondente(s). Não esquecer: a comunicação não verbal – gestos, movimentos e expressões faciais – pode ser muito útil para facilitar a apreensão de conceitos!

Definir explicitamente o significado da nova palavra e evocar palavras alternativas para transmitir a mesma ideia: esquisito, desconhecido, atípico, diferente!

 

Durante a Leitura:

Já com uma ideia clara do significado de “estranho” ou “atípico”, será interessante utilizar a estratégia da Rede Semântica (vulgo Família de Palavras) e pesquisar outros animais, esses sim, efetivamente estranhos.

Aproveitando para trabalhar competências gráficas e noções de escrita, os jovens leitores podem elaborar os seus próprios registos de animais estranhos que conhecem ou descobrem na atividade … dando aso a que se use um novo conceito: o de animais raros ou em vias de extinção.

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E a partir daí, será mais fácil explorar livros temáticos e conhecer mais espécies com características estranhas ou, infelizmente, espécies raras e ameaçadas.

Ah, e claro, não esquecer de chamar a atenção da criança para a direccionalidade da escrita, para o duplo sentido da leitura e para a circularidade da história, que obriga a  “dar a volta ao texto” (rodar o livro).

As ilustrações devem ser também alvo de atenção, e pela sua simplicidade, captarão a atenção do leitor para o protagonista da história e a sua progressiva transformação.

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Após a Leitura:

Por que não … desenhar ou construir um “bicho estranho” com plasticina ou com um ovo vazio, falando sobre as partes do corpo que o compõem e reforçando vocabulário específico referente ao esquema corporal? A começar com palavras mais frequentemente utilizadas como “cabeça”, “pernas”, “braços”, “dedos”, entre outros, mas não deixando de explorar, gradualmente, vocábulos mais específicos e menos familiares: joelho, cotovelo, queixo, pestanas, tornozelo e muitos outros.

Riam e desfrutem. Estamos certos que pequenos e graúdos não vão estranhar este bicho estranho!

E, por ora, é tudo! Até à próxima leitura.

 

Referências Bibliográficas:

Wasik, B., Hindman, A. & Snell, E. (2016). Book reading and vocabulary development: A systematic review. Em Early Childhood Research Quarterly. 37, 39–57.

Bem-Vindo(a)!

Bem-Vindo(a),

Cá em casa gostamos de livros como artefactos de fruição humana… mas isso pouco serviria ao leitor se não fosse, esta aparente inutilidade, mobilizadora da vontade de partilhar com outros aquilo que apreciamos e aquilo que, de alguma forma, poderá servir a outros como uma mais valia. Afinal, temos a convicção de que o livro é um poderoso instrumento, temos a convicção que os leitores se constroem e que os leitores crescem pelo engenho do livro e da mediação da leitura.

Cá em casa gostamos do nosso cão,  fiel companheiro, até nas leituras… guardador de livros, imponente! Torna-se, por simpatia, um bicho leitor, um bicho poeta, um bicho cultura é o nosso bicho de imaginar… É um cão que adora livros!

 

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“Dog Loves Books”, de Louise Yates, Random House Children’s Publishers UK.

 

E assim imaginámos um Cão Leitor que partilhasse com a comunidade as nossas experiências enquanto leitores em construção permanente e enquanto adultos que partilham com crianças, à volta de livros.

Os caminhos que cruzamos levam-nos a perceber que ler e aprender a ler é, para alguns, um “bicho-de-sete-cabeças”!  Um verdadeiro “quebra-cabeças” ou “labirinto” que pode mesmo privar algumas crianças, e correspondentes adultos, do prazer da leitura e das vantagens do acesso ao Livro.

Sabe-se que começar cedo, com experiências de leitura e escrita estruturadas, variadas, e suportadas por leitores mais competentes é fundamental para promover competências de literacia emergente e construir jovens leitores (Cunningham & Zibulsky, 2014); aqueles que, desde cedo, apreciam o prazer da literatura!

Prevalece uma questão: que competências promover para o sucesso na aprendizagem da literacia? Diversos são os modelos à luz dos quais se descreve e explica o conceito de Literacia Emergente, mas, inspiradas pelo modelo tradicional Inside-Out, Outside-In de Whitehurst e Lonigan, Elaine Weitzman e Janice Greenberg (2010) propõem as seguintes competências como basilares para aprender a ler e a escrever com êxito:

– Competências linguísticas para participar em conversas;

– Conhecimento de vocabulário;

– Compreensão de narrativas;

– Capacidades para a inferência linguística;

– Consciência fonológica;

– Domínio sobre conceitos de escrita.

Porque um livro, não é só um livro, enaltece-se com este a arte da literatura infantojuvenil, para além do tema, número de páginas, formato e até idade! Por que um livro, não é só um livro, valoriza-se este objeto fundamental do universo infantil, personagem principal de tantas peripécias e desventuras que se vivem, sentados numa cadeira, à sombra de uma árvore ou deitados num sofá. Porque um livro é muito mais do que um livro … abrace o desafio, mergulhe na aventura e conheça obras que nos encantam e ajudam a descobrir novos mundos. Sempre na companhia do Cão Leitor … e de muitos outros jovens leitores.

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Em “Dog Loves Books”, Louise Yates.

Referências Bibliográficas:
Cunningham, A. & Zibulsky, J. (2014). Book smart. How to develop and support successful, motivated readers. Nova Iorque, NY: Oxford University Press.
Weitzman, E. & Greenberg, J. (2010). Abc and beyond. Building emergent literacy in early childhood settings.  Toronto: The Hanen Centre.